220 horas na água
Não sou a pessoa das metas e resoluções. Talvez um pouco mais de planejamento de longo prazo não me fizesse mal, mas, no geral, vou vivendo os anos conforme se apresentam, tomando minhas decisões conforme a vida acontece. O que não é o mesmo que escolher sem consciência, reflexão ou responsabilidade, pelo contrário — eu penso até demais. Talvez, vendo com bons olhos, a palavra seja flexibilidade.
Em 2025, não foi diferente.
Eu comecei o ano sem expectativa nenhuma, ainda envolta em um trauma que parecia não ter data pra acabar. Como um peso. Uma sombra sempre presente em tudo o que eu fazia e pensava. Mais do que nunca, só fui vivendo e nadando. Um dia de cada vez.
E, ao contrário de qualquer prognóstico que eu poderia ter feito em janeiro, acabou sendo o ano mais incrível da minha vida. Também não sou a pessoa das listas, mas 2025 merece. A seguir, dez pequenos grandes marcos desse que foi o melhor ano de natação até aqui.
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Recomeçar – 5km em Bombinhas
A primeira prova longa do ano, a primeira mais expressiva já com a assessoria nova. Bem no início de janeiro, não cheguei nem a interromper os treinos entre Natal e Ano-Novo. Não sabia o que esperar, mas já confiava nos treinos e estava feliz por estar onde estava. Foi uma prova linda. E o melhor começo de ano que eu poderia ter.
Terapia
Fazia muito tempo desde a última vez que tinha consultado com uma psicóloga. E, antes da primeira sessão, fiquei alguns dias me debatendo com perguntas e pensamentos como: “falar o quê?”, “falar como?”, “como começar?”, “e se eu estiver exagerando?”. A vergonha de ter que admitir que vivi aquilo, que deixei alguém me tratar daquela forma. Tudo foi ruim e estranho e desconfortável no começo. Mas, ao mesmo tempo, já na primeira sessão senti o alívio de poder falar. Em voz alta. Tirar aquilo de mim. E, de sessão em sessão, a terapia fez sua mágica. Começamos a entrar em outras searas já perto do fim do ano, e eventualmente acabamos interrompendo as sessões. Tenho planos de retomar em algum momento, mas também sei que o período que fiz cumpriu bem seu papel. E fiquei com o aprendizado valioso de que é sempre uma opção. A gente não precisa lidar com as coisas sozinha.
Ubatuba
A viagem perfeita, com um grupo de amigos queridos, uma prova incrível e um mar de outro mundo. Depois de Bombinhas, o lugar onde mais me senti bem nadando. Também foi quando conheci pessoalmente o Nathan, da PunkYoga. E passamos algumas horas deliciosas tomando água de coco e conversando na beira da praia como se já nos conhecêssemos desde sempre. Um encontro especial e uma prova especial em um lugar especial. Tudo nessa viagem teve ares de magia. Quero muito e hei de voltar um dia.
Reaprender a nadar devagar
Tem uma máxima na natação que diz: antes de nadar rápido, é preciso saber nadar devagar. Depois de passar tanto tempo com medo de desacelerar, ou de não evoluir, de não estar dentro de um determinado ritmo, treinar seguindo um método claro me permitiu redescobrir minha natação em um ritmo lento. Sem afobação, sem medo de chegar na borda. A natação atenta, focada, presente. A natação que permite sentir e lapidar a técnica e, assim, nadar mais rápido.
Nadar na água gelada
Nadar me mostra constantemente como sou capaz de coisas que antes julgava impossíveis. Ou absurdas. Ou distantes demais do meu alcance. Nadar 8 km num mar a 17°C (e virado do avesso) foi uma delas. Não sei bem de onde vem o ímpeto — esse que me faz tomar a decisão de simplesmente ir —, mas desconfio que venha da água também. A força, a autoconfiança, a certeza de que nadando sou minha melhor versão — e quem eu sempre deveria ter sido.
Fazer parte de um time
Talvez essa tenha sido a linha que costurou o ano. Pode parecer bobo, mas ter um uniforme pra vestir e uma equipe pra chamar de minha deu um novo contorno pra tudo. Dos treinos às provas. Nunca pensei que, em um grupo de centenas de pessoas espalhadas pelo país, pudesse me sentir realmente parte. E não é porque é a camisa que eu visto hoje, mas o time Samir Barel é diferente. Todos os colegas que já conheci têm essa mesma energia que sempre vi em mim — de torcer uns pelos outros, apoiar, ajudar, somar. De longe, a escolha mais certa que eu poderia ter feito.
Respirar
Fiquei pensando em qual seria o verbo mais adequado pra usar aqui. Não é exatamente “superar”, definitivamente não é “esquecer”, “deixar para trás” também não me parece muito preciso. Algumas marcas ficaram. Não cogito a possibilidade de um treinador presencial de novo tão cedo. E não escuto nem absorvo mais da mesma forma qualquer relato ou história de abuso e violência. Tem engrenagens que mudam dentro da gente depois de passar por algo assim. Mas posso dizer que voltei a respirar como antes. Voltei me sentir leve como antes.
Amizades
Ano passado eu quis comemorar o meu aniversário. Poderia parar aqui e estaria explicado. E está. Os amigos que fiz com a natação — as amigas, em especial — são um dos poucos grupos que me despertaram essa vontade até hoje. Reunir pessoas, comemorar a vida. A minha vida. E, mesmo no calor dos últimos dias de dezembro antes do Natal, foi especial demais. São esses pequenos momentos e gestos, afinal, que permanecem com a gente — rir e conversar e passar uma tarde na companhia de quem a gente gosta.
Os 10 km
O auge do ano. O dia dos sonhos. A prova da minha vida. Já escrevi sobre ela aqui e não sei o que poderia trazer de novo. Uma prova, como sempre digo, é só um dia. Em tantos sentidos, importa mais o caminho que levou até ali — treinos, dedicação, disciplina, o próprio ato de sonhar. Mas nem mesmo em sonhos me concedi um dia tão especial quanto o que de fato vivi.
Respiração bilateral
Sim. Parece banal. Mas não é. Como alguém que sempre nadou respirando só pra um lado, eu diria que é quase o equivalente a escrever com as duas mãos. Tentei muitas vezes ao longo dos últimos anos e sempre pareceu impossível. Nunca consegui encaixar por mais de dois ou três ciclos de braçadas. Mas nos 10km senti muita dor no braço do apoio e voltei decidida a fazer a bilateral acontecer. E foi aí que vi o resultado de um ano seguindo os educativos da planilha: entrei na piscina, comecei a nadar em 3x1 e simplesmente aconteceu. Assim, quase como mágica (mas não foi, voltemos à frase anterior: um ano seguindo à risca todos os educativos da planilha). Claro, ainda estou longe da mesma naturalidade que tenho no lado dominante, tem dias que não funciona tão bem, mas é questão de tempo. E de treino. Como tudo na vida.
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Fechei o ano com 738 km nadados. Entre treinos e provas, foram 220 horas na água. 2025 me surpreendeu das mais inesperadas maneiras. Estar viva, ser surpreendida pela vida e descobrir que a realidade pode ser melhor do que os sonhos talvez seja um privilégio, mas são meus votos também para o novo ano que já começou.
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