O sonho dos 10 km
Não sei bem quando um lugar passa a ser “nosso”.
A primeira vez que estive em Bombinhas, nos últimos respiros de normalidade antes do vírus que ninguém achava que seria tão grave se espalhar pelo mundo em questão de semanas, foi uma viagem um tanto aleatória, no melhor estilo festa estranha com gente esquisita.
Eu comprei um óculos de natação em uma loja de 1,99 pra poder nadar. Mas, naquele tempo, Bombinhas era só mais uma praia bonita de Santa Catarina. E nadar ainda era uma brincadeira mais do que qualquer outra coisa.
Hoje, olhando pra trás, posso ressignificar aqueles dias dizendo que tinha qualquer coisa na água. Que, já ali, o mar de Bombinhas me deixou uma marca.
E talvez tenha deixado mesmo.
*
De lá pra cá, voltei a Bombinhas pelo menos umas seis vezes. Todas pra nadar.
Prova a prova, aprendi com o mar. A nadadora que sou hoje foi forjada naquelas águas tanto quanto nas lagoas do Rio Grande Sul, onde também me orgulho de ter começado.
E, a cada vez que voltava, mais começava a ganhar corpo dentro de mim a certeza de que os 10 km — a distância da maratona aquática, o sonho que por muito tempo eu nem sabia que podia sonhar — não poderiam acontecer em outro lugar.
Foi no mar de Bombinhas que nadei minhas melhores provas. E também as mais desafiadoras. Foi lá onde descobri, um pouquinho mais a cada prova, a força que tenho e do que sou capaz.
O que aprendo hoje com meus treinadores (e que o mar de Bombinhas me ajudou a entender na prática) é que capacidade não é algo que se tem ou não — e sim que se desenvolve com treino. Essa é a base que nos faz confiar e acreditar que é possível fazer mesmo o que nunca fizemos antes.
Degrau a degrau, esse foi o princípio que pavimentou meu caminho em 2025: 5 km em janeiro, 6 km em maio, 8 km em agosto, 10 km em novembro.
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E os 10 km.
Eu visualizei muito esse dia. Eu queria que fosse especial. Por isso escolhi fazer um desafio solo e não em uma prova. Mas nem nos melhores cenários que me permiti imaginar eu consegui conceber um dia tão perfeito. Sol, nada de vento, a água em 22°C, o balancinho do mar na medida — só o necessário pra não parecer uma piscina. Mesmo no trecho que prometia ser o mais complicado — um canal entre o continente e uma ilha próxima —, o próprio barqueiro comentou o quanto era raro encontrar o mar naquelas condições.
E sinto que realmente fui presenteada. Por um lugar em que já estive tantas vezes que sinto como meu. Por um mar em que já nadei tantas vezes que talvez me reconheça.
O que não quer dizer que foi fácil ou que não tive dificuldades.
Foi a primeira vez que encarei uma corrente contra de verdade. Nadar e nadar e nadar e não sair do lugar. As hidratações eram de meia em meia hora, um tempo em que eu esperava fazer em torno de 1200, 1300 metros — nadando leve, por ser uma distância longa. Lá pelas tantas, entre uma hidratação e outra, o organizador, que estava no barco e administrando a hidratação pra mim, avisou que eu tinha nadado só 600 metros desde a parada anterior.
Pedi na hora pra ele não me falar mais a distância até sair daquele trecho. Foi importante saber uma vez pra entender o que precisava fazer — força —, mas, ainda assim, a cabeça vai muito longe e muito rápido nessa hora.
E se eu não passar? E se for assim até o final? E se eu levar tempo demais? E se faltar hidratação? E se não der pra completar?
E sempre a mesma pedra lá na margem. É desesperador.
A presença e postura de quem está no barco fazem muita diferença o tempo todo, mas ainda mais nessas horas. E eu tinha total confiança em quem estava comigo ali. Muito mais do que confiança: eu sabia que ele queria me ver chegar tanto quanto eu mesma. Não fosse assim, não sei se teria tido a mesma tranquilidade pra seguir.
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Uma das perguntas que me fizeram na caixinha de perguntas que abri nos stories depois (me senti blogueira demais!) foi sobre o que mais me surpreendeu durante o desafio. Adorei essa pergunta.
E, sem dúvida, foi isso — a parte mental e emocional. O quanto mexeu com a minha cabeça de uma forma completamente diferente do que qualquer outra prova antes.
Dor, cansaço, eventuais encontros com águas-vivas (tivemos de leve), vento, mar mexido — tudo isso eu esperava e pra tudo isso estava preparada. E, claro, também sabia que tinha um componente emocional envolvido — pela minha relação com a natação, por tudo o que essa prova simbolizava, pelo quanto sonhei com esse dia e me dediquei pra que ele fosse possível.
Mesmo assim, foi além e diferente de qualquer coisa que eu poderia ter esperado. Num nível que de fato não consigo descrever.
A água fala com a gente em uma língua que prescinde de palavras — e que, por isso mesmo, elas não dão conta de descrever. Só nadando, vivendo e sentindo pra entender.
E eu senti tudo e senti muito.
Não apago as dificuldades, os sustos, os trechos em que vacilei. É importante lembrar de tudo isso pra seguir aprendendo e evoluindo. Mas o que mais guardo são os momentos de flow. De entrega total. O nado encaixado, fluindo, nenhum pensamento. Ouvindo só os sons da água e da minha respiração. Tomada de êxtase e encantamento, absolutamente feliz por estar onde estava.
Foi emocionante demais. Não à toa cheguei assim:
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Um pensamento que me ocorreu diversas vezes enquanto nadava foi o quanto mobilizei para estar ali. Quantas pessoas mudaram suas rotinas para estar ali comigo. Quantas pessoas estavam envolvidas, direta ou indiretamente, num sonho que era meu.
Todos os amigos que mandaram mensagens na véspera da prova e que estavam torcendo por mim; meus treinadores, Samir e Chan; o professor da preparação física; os professores e colegas da piscina onde eu treino; minha mãe e amiga que me acompanharam na viagem; o barqueiro; o Carlão e a Karina, impecáveis, organizadores de todas as provas que já nadei em Bombinhas e do desafio também.
Um lugar nunca é só um lugar. Assim como um sonho nunca é só nosso. Os melhores lugares sempre trazem os rostos de quem faz com que sejam especiais. E os melhores sonhos são sempre povoados por todas as pessoas que nos ajudam a realizá-los.
Porque, com o perdão pelo clichê, os melhores sonhos não são sonhados sozinhos.
E, depois desse sonho, tenho ainda mais certeza: tenho muita sorte pelas pessoas incríveis que tenho perto de mim.
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As curvas mais estranhas pra chegar aos lugares certos. A água como fé e a natação como bússola.
A internet ainda precisa de alguns textos
~ PunkYoga: Lutando contra algoritmos assassinos (a internet não precisa de mais um texto, mas continua precisando dos textos do Nathan)
~ Débora Cançado: ninguém se importa se você não for à festa
~ Lígia Ximenes: a peça que falta
~ Daniel Galera: viajar de ônibus





