Não desistir dá trabalho
Mas eu escolho ser a pessoa que acredita.
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No ônibus, indo visitar a família no último final de semana de abril, abri de novo o último livro que li da bell hooks:
O pensamento que pressupõe que tanto mulheres quanto homens são igualmente capazes de aprender a amar, a dar e receber amor, é a única base sobre a qual se pode construir amor mútuo duradouro e significativo.
É sempre bom ter um livro da bell hooks por perto.
Relendo os trechos sublinhados à luz dos acontecimentos recentes, percebi o quanto luto para não soltar certas histórias, para não deixar ir...
Parte de mim reluta em abrir mão, parte de mim ainda quer vivê-las e insiste, muitas vezes mais do que deveria.
O que eu com frequência demoro a reconhecer é o quanto eu luto por ideias, por possibilidades, por quases — por um potencial de futuro que, ao que tudo indica, só eu enxergo e desejo.
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Não é muito diferente na natação.
Foi principalmente nadando em águas abertas que me tornei, ainda mais, essa pessoa:
a que insiste,
a que vai mesmo sem ter certeza,
a que arrisca mesmo com medo,
a que não desiste no meio.
Porque, em cada prova, eu sei a história que quero contar. Nunca sei se vai dar certo, mas sei o que quero e não desisto fácil do meu desejo.
A água e o clima podem me surpreender com condições adversas, que vão exigir que eu saiba me adaptar e lidar com o que a natureza oferece. Ou, ao contrário, podem me presentear com corrente e vento a favor. Seja qual for o cenário, durante todo o percurso, me mantenho fiel a mim — à minha história.
Tem algo de bonito e triste em não desistir das nossas histórias.
A diferença é que, nadando, eu só dependo de mim mesma para contá-las.
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É cansativo e solitário ser a pessoa que não desiste. Mais do que isso: é uma estupidez não desistir quando já desistiram da gente.
Mas, depois de alguma estrada e análise, consigo entender de onde vem, pelo menos em parte, esse meu ímpeto de tentar salvar as coisas:
eu acredito no poder da reparação.
Da conversa, do diálogo, do ajuste. Do encontro no meio do caminho entre os extremos. E do que pode nascer, renascer ou se reinventar a partir daí.
Eu acredito na vontade de fazer diferente, de consertar, de tentar de novo quantas vezes for necessário — desde que haja integridade e reciprocidade nas tentativas e enquanto houver algo pelo que valha a pena lutar.
E, principalmente: eu não acredito no acaso dos encontros.
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Amanhã, embarco rumo à Croácia para a minha primeira prova internacional. E, mais uma vez, para o maior desafio até aqui: 33,3 km em 4 dias, numa água que promete estar a 16°C.
Não sei o que vai acontecer, não sei se vou conseguir, tenho os mesmos medos de sempre.
(Mesmo. Os mesmos medos que senti pela primeira vez em 2019, na minha primeira prova. Eles aumentaram de tamanho, me acompanhando, mas conheço cada um pelos olhos, meus companheiros.)
Não sei o que vai acontecer, mas sei a história que quero contar. E, quando olho para trás, confirmo:
o tempo passou.
O tempo passou, as feridas cicatrizaram, a vida continuou — e continuou melhor.
Já nadei duas maratonas treinando com alguém que me incentiva, me apoia e me ajuda a acreditar que é possível. Alguém que vai em frente junto. Sou grata a ele a cada treino e a cada prova, mas aprendi (sigo aprendendo) a ser grata principalmente a mim. Por não desistir e continuar acreditando e treinando.
Por não desistir de mim.
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Não desistir dá trabalho, é cansativo e solitário, mas a gente precisa acreditar que vale a pena.
Que o tempo passa.
E que coisas boas acontecem e vão continuar acontecendo.
O amor próprio pode nos sustentar, mas, para prosperar na comunidade, que é onde vivemos, precisamos receber amor dos outros.
Toda mulher [eu ousaria dizer pessoa] deveria ter, em seu círculo de amor, companheiros para a alma. A nutrição da alma nos sustenta quando toda a pompa de poder, sucesso e bem-estar material perde sentido. Para encarar a vida em toda a sua integridade e complexidade, o que eu gosto de chamar de “o bom, o ruim, o feio e o obsceno”, sem cair na desonestidade ou no desespero, precisamos de uma alma que esteja pronta para ser nosso conforto e nosso escudo. Essa presença de alma, esse prazer e encarar a vida e vivê-la, nos chega conforme avançamos no caminho para o amor, conforme procuramos amor. É a dádiva abundante.
O amor verdadeiro é generoso e sempre se renova. Mulheres sábias que amam não sentimos medo de abrir o coração.
Submersa
~ Alberto Pucheu: é preciso aprender a ficar submerso por algum tempo
~ Débora Cançado: escrever errado
~ Carolina Bataier: te desinfluenciando
~ Eu não interfiro para que faça sentido. Eu observo para que seja verdade.



Tão bom acompanhar sua evolução na natação e na vida. Sempre me comovo com sua escrita. Espero que tenha uma boa prova e nos beneficie com seus bons insights. Um abraço.
que bom ler sobre a sua jornada, que bom nadar com você <3 e boa sorte na croácia!! eu fui uma vez (no inverno) e fiquei só em zagreb, mas a croácia foi muito boa comigo, certamente será boa com vc tbm!! :)