Minha relação mais longa
A essa altura, talvez já seja seguro afirmar: minha relação mais longa não vai ser com uma pessoa.
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O retorno aos treinos depois da aventura croata foi lento e difícil. Demorei semanas pra chegar de novo a um ritmo parecido com o de antes.
Para mim, o impacto dos 33 km em 4 dias não aconteceu naqueles 4 dias. Veio depois. Quando voltei a treinar achando que logo seria como antes e, bom, não foi.
Não só o ritmo não era o mesmo, como a sensação dentro d’água era diferente. Estava mais lenta, pesada, dura. Era difícil nadar. Eu me sentia brigando com a água.
Nem sinal de um nado encaixado, leve, eficiente, fluido. A potência nos tiros de intensidade. Era o que eu queria de volta, mas o que tive foi uma gripe que me tirou de circulação. Depois, mais um resfriado leve.
Meu corpo se negava a voltar. Como se dissesse: calma. Qual é a pressa?
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E de fato não havia pressa.
Depois de um esforço grande, a ressaca faz parte, e é preciso ter paciência.
Minha próxima prova é só em outubro. Eu tinha — tenho — meses pela frente pra fazer correções na técnica sobre as quais conversei com meu treinador.
E passei a me dedicar a elas.
Um novo hiperfoco.
Todos os dias prestando atenção no mesmo aspecto: a puxada em bloco, usando o tronco em conjunto com o braço. Além de potencializar a braçada, é o que vai ajudar a melhorar o rolamento, esse sim o ponto que preciso corrigir.
Paciência.
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Muitas vezes, fazer um ajuste na técnica mexe com toda a dinâmica do nado. Muda o padrão. E, por muito tempo, essa mudança não vai ser natural. Não vai acontecer se a gente não estiver 100% concentrada nela.
Pode ser desconfortável também. Mudar um movimento errado ou ineficiente, mas automático, pode gerar desconforto. Aquela sensação de nado desengonçado, de “não consigo fazer isso direito”.
Será que não é melhor desistir e deixar como antes?
E, nessa hora, é preciso insistir. E insistir. E continuar insistindo e repetindo até que um dia, de repente, opa, já não está mais tão desengonçado, já não é mais tão desconfortável assim.
Paciência.
E consciência.
*
Foi em algum momento desse processo que uma colega um dia perguntou:
— Como tu faz pra respirar?
A pergunta de milhões da natação.
Eu fiquei pensando em como responder, e expliquei pra ela uma sequência de movimentos e posições corretas do corpo que facilitam a respiração, mas a resposta mais honesta é que não sei como responder.
Não porque não saiba respirar, mas porque não existe uma resposta simples.
“Ah, é só fazer isso.”
Disse nunca nenhum nadador.
Porque nada na natação acontece assim. Nada acontece de forma isolada.
Para respirar de uma forma eficiente — sem cansar, sem gastar energia à toa, sem gerar arrasto —, é preciso, só pra começar, estar com a cabeça na linha da água. Um olho pra fora, um olho pra dentro. Pra cabeça ficar nessa posição, o quadril e o braço de apoio não podem afundar. Pra que isso não aconteça, braçadas e pernadas precisam estar coordenadas. E, pra conseguir coordenar braços e pernas... É preciso respirar no tempo certo.
Um movimento influencia o outro. A posição de uma parte do corpo afeta a de todas as outras. Um ajuste desencadeia vários outros.
E essa construção não acontece em uma aula. Não acontece em duas. Não acontece em 30. Acontece em meses. Em anos.
E a melhor notícia é que esse processo nunca termina.
Eu considero esse caminho prazeroso. Desafiador, cansativo, às vezes frustrante, mas prazeroso. Ter uma prática para aperfeiçoar e à qual me dedicar sistematicamente, dia após dia, me instiga, coloca cor e vida nos meus dias.
Eu quis me dedicar a essa busca sabendo que levaria anos desde o primeiro momento. Porque desde o primeiro momento senti que tinha encontrado na natação uma prática para a vida toda.
Mas nem todo mundo pensa assim. Nem todo mundo quer essa busca.
*
Recentemente, apareceu uma dor no ombro.
Falei com meu treinador, marquei consultas, suspendemos o uso do palmar até segunda ordem (sem ele, felizmente, não sinto nada, meu nado continua intacto.)
Até que demorou pra algo assim acontecer. Já são ~oito anos nadando todos os dias. Oito anos de uma relação que, eu espero, dure mais que qualquer outra e me acompanhe por toda a vida.
Uma relação que faz por mim o que o amor deve fazer: me ajuda a crescer, a ser melhor, mais forte e mais feliz comigo — com quem eu sou e do jeito que sou.
Uma relação que exige e ensina o que o amor exige e ensina: paciência.
Paciência, consciência, dedicação e cuidado.
Não é assim, tenta de novo
~ Luisa Pinheiro: lugar de origem
~ Débora Cançado: não é assim, tenta de novo
~ Babi Bom Ângelo: o sumiço da natureza
~ Futuro Sensível: o cansaço de controlar tudo
~ CircleSide: mergulhar em um esporte é deixar de ser alguém “em busca de” para se tornar alguém com conteúdo próprio



Siiim! "A melhor notícia é que esse processo nunca termina". Processo lindo, trabalhoso, de mergulhos infinitos dentro de nós mesmas! <3