Em busca da dificuldade
Nothing great is easy.
Nada grandioso é fácil.
A frase é atribuída a Matthew Webb, a primeira pessoa de que se tem registro a atravessar o Canal da Mancha a nado, em 1875.
Sempre tive resistência a esse tipo de pensamento. É a mesma linha de outro dito bem famoso, estampado em mil camisetas, cadernos e canecas por aí, repetido à exaustão na bolha da natação e fora dela também:
Mar calmo nunca fez bom marinheiro.
Será mesmo? Eu não tenho tanta certeza.
De um modo geral, a vida já é difícil o suficiente pra gente ir atrás de mais dificuldade.
Mas eu fui.
*
Por quê?, alguém pode perguntar.
E talvez parte de uma resposta 100% honesta seja: porque posso ser bastante influenciável, não preciso de muito pra me atirar em certas maluquices e, no momento em que meu técnico disse “com certeza você consegue”, foi o que bastou pra decidir ir lá ver se conseguia mesmo.
Isso e o fato de ser minha primeira prova internacional, nadando em águas tão cristalinas como nunca tinha visto antes, em um país que gostaria de conhecer e pra fazer o que mais me preenche e me traz felicidade na vida.
Não sei de onde vem o ímpeto de me colocar à prova em situações difíceis, mas é algo que tenho cultivado com afinco desde que comecei a nadar — honrando uma menina que no fundo sempre quis, mas nunca conseguiu se arriscar dessa forma quando criança.
*
A proposta do UltraSwim 33.3 é dividir a distância da travessia do Canal da Mancha (33,3 km em linha reta, embora todos que nadem percorram uma distância bem maior por conta das correntes) em trechos menores ao longo de 4 dias de provas. É um circuito pensado para nadadores que querem se desafiar, mas ainda não encarando uma distância como essa de uma vez só (algumas edições oferecem essa possibilidade também; na Croácia, uma nadadora e um nadador fizeram os 22,2 km e sete tentaram, mas não completaram, os 33.3 — as condições da água no dia estavam bem difíceis).
O evento acontece em diferentes países ao longo do ano, sempre em águas e paisagens tão paradisíacas que não parecem reais, e reúne nadadores do mundo todo. Na Croácia, o Brasil era o país em maior número — 30 pessoas entre nadadores e acompanhantes. Como dá pra imaginar, fizemos muito barulho.
Antes do início das provas, entramos na água sem as roupas de borracha duas vezes. O objetivo era acostumar o corpo ao frio (a temperatura da água não passou de 17,5°C; no dia mais frio, chegou a 16°C), perceber os efeitos e como reagimos para que, na hora da prova, o susto não fosse tão grande. Essa aclimatação é fundamental.
No primeiro dia, eu tive muita dificuldade pra controlar a respiração — menos pelo frio em si do que pelo susto. Um dos efeitos da água fria é exatamente esse: o coração acelera, a gente hiperventila, se assusta, fica difícil controlar a respiração até fora d’água, o que dizer nadando.
Nessa primeira entrada, meu treinador, que nadou ao meu lado até eu conseguir nadar de fato, lembrou: treinada e condicionada você está, agora é controlar a cabeça.
Entrar na água fria continuou sendo desagradável, completar as distâncias foi cansativo, a navegação estava longe de ser fácil, mas terminei os 4 dias de prova entendendo que o maior desafio, pra mim, foi exatamente esse: a cabeça.
Em muitos momentos, eu esqueci do mais importante: relaxar e curtir. Sentir o prazer de nadar. Era quando de repente olhava para o fundo, via os amigos nadando do meu lado e a água cristalina ao nosso redor, os raios de sol irradiando de dentro da água como se viessem do fundo — a presença de algo mágico e divino ali com a gente nesses momentos.
Nessas horas, eu lembrava de onde estava e do privilégio de estar ali — da grandiosidade e da beleza do mundo e da vida, da perspectiva tão singular que é conhecer o mundo nadando.
*
Outra lição valiosa, e que vai me acompanhar por toda a vida daqui para frente, foi sobre precisar de ajuda. Precisar de ajuda e me deixar ser ajudada.
Já são alguns anos participando de provas de águas abertas e nunca tinha acontecido de nadar acompanhada, como fizemos não só em uma, mas nas duas pernas mais longas.
Eu sofro com o nervosismo das largadas, às vezes mais, às vezes menos (mas com a água a 17°C podem apostar que foi mais), e me acostumei a fazer minhas provas sozinha, pra não prender ou impor meu ritmo a ninguém.
E daí aconteceu de encontrar a Fer e o Gustavo.
Nos cruzamos na água nos primeiros dias, nadamos alguns trechos juntos, vimos que chegávamos sempre mais ou menos ao mesmo tempo... E decidimos fazer o restante juntos. E juntos fomos, da largada à linha de chegada, primeiro nos 10 km e depois nos 5,6 km do dia seguinte.
Antes de nadar com os dois, teve um trecho de uma das pernas anteriores em que todos ficamos sozinhos. Ninguém via ninguém. Nem boias, nem caiaques, nem outros nadadores. E a sensação geral no pós-prova era a mesma entre todos: aquilo foi horrível.
A cabeça balança. E, mesmo sabendo que não tinha mistério — era só seguir o continente em linha reta —, eu me assustei. Duvidei. Parei muitas vezes num semidesespero até conseguir colocar a cabeça e a respiração em ordem (sempre elas), me acalmar e seguir adiante.
Isso mudou quando começamos a nadar juntos. Nos momentos em que tudo ficava difícil, olhar pro lado ou pra frente e ver os dois afastava os pensamentos negativos da minha cabeça e dava força pra continuar.
E ali eu entendi: contar com ajuda não diminuiu o valor das provas; ao contrário, só engrandeceu.
Se estivesse sozinha, em algum momento eu iria chegar (ou pelo menos gosto de acreditar que sim), mas com certeza demoraria mais e não seria uma experiência tão prazerosa.
Dividir o caminho torna o caminho melhor.
E eu ainda me emociono toda vez que lembro da companhia deles no trajeto, das nossas chegadas, da irmandade que construímos na água.
Como a Fer escreveu no perfil dela: “Quando você dá oportunidade para a vida, ela te entrega amigos, apoio, esperança, ânimo, gente que te impulsiona e acredita em você até quando você acha que não vai conseguir”.
Ser nadadora de águas abertas e ter a chance de viver e sentir tudo isso é um privilégio, sim. Ao mesmo tempo, é a prova do quanto a vida devolve quando a gente se doa, se dedica e se entrega.
*
Se propor a fazer coisas difíceis — e conseguir! — também assusta. Bastante. São conquistas que mudam a nossa cabeça e as engrenagens dentro da gente, e sinto que estou exatamente no meio dessa mudança.
Na volta da viagem, conversando de novo com meu técnico, dessa vez sobre planos ainda mais ousados para o ano que vem, ouvi novamente:
“Pode ter certeza que você consegue.”
É só o que eu preciso pra tentar.
Em 2027, se tudo der certo, vou atrás de mais dificuldade pra minha vida.
Viver o corpo, viver vivendo
~ UltraSwim 33.3 #12Croatia: nesse link, para quem quiser ter uma ideia melhor do que acontece nessas provas, está a playlist com os vídeos da edição da Croácia — o terceiro mostra as condições que adiaram, quase cancelaram e reduziram a perna do terceiro dia; o quarto começa com uma participação especial da nossa mascote brasileira, que nadava junto com a Fer, minha parceira de nado, e nós três aparecemos nadando logo depois.
~ Lalai Persson: vivendo ao lado de quem inventa a própria vida
~ Futuro Sensível: o outro nos ama como ele é capaz
~ Ligia Ximenes: o mundo não é feito de coisas
~ Fran Carneiro: viver o corpo porque é dele que nossa intuição se fortalece, é nele que nossa ancestralidade vive





