Confiar
Em “Uma vida pequena” (Hanya Yanagihara), um dos personagens principais, Jude, sofre uma série de abusos e violências ao longo da vida. Não vou entrar em detalhes para evitar estragar a leitura de quem porventura resolva encarar o calhamaço — são quase 800 páginas, mas recomendo.
Todas as pessoas que me falaram do livro se referiram a ele como “a história mais triste que já li na vida”. Já no terço final da leitura, não sei se “triste” é a palavra que eu usaria. É uma história pesada. Mas pesada porque possível — não tem nada ali que não aconteça no mundo lá fora — e porque as partes menos verossímeis e realistas do livro são justamente as coisas boas que acontecem na vida do personagem. Na vida real, possivelmente seriam só as desgraças, possivelmente seria ainda pior.
Entre o rol sofrimentos — spoiler —, está um relacionamento abusivo que o personagem vive já na fase adulta. Um relacionamento curto, de poucos meses, mas que envolve mais uma série de abusos e agressões. Verbais, psicológicas e físicas.
Não sei qual a base da autora para descrever essas diversas situações — se o “conhecimento” vem de experiências próprias ou de uma pesquisa muito bem-feita. O que me fez ao mesmo tempo não conseguir parar de ler e pausar a leitura em diversos momentos, nessa parte específica da história, foi me reconhecer em algumas dessas descrições. Em toda a dinâmica que leva o personagem a acreditar que precisa aceitar “o que estiver disponível” — na lógica por trás de aceitar o inaceitável e justificar o injustificável.
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Em paralelo a essa leitura relaxante, estava assistindo Cobra Kai. Depois de terminar Adolescência e começar e abandonar várias outras séries “sérias”, fiquei muito satisfeita com seis temporadas de adolescentes lutando caratê.
A série é uma continuação de Karate Kid (um filme que ignorei todas as vezes que passou na Sessão da Tarde nos anos 90), com os mesmos atores agora adultos. E, embora esse não seja o foco e a questão seja tratada de forma bem superficial, uma das tramas que atravessa toda a história é a relação abusiva entre um dos protagonistas, Johnny Lawrence, com o ex-treinador (ou, no jargão do caratê, sensei), John Kreese.
E aqui vai mais um spoiler — pequeno, mas ainda assim spoiler.
Em um dos episódios finais da última temporada, em um último encontro com seu antigo sensei, Johnny chora e diz o seguinte:
“Eu te amava. Eu confiava em você. Eu fazia de tudo pra te agradar.”
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Nos últimos seis meses, estive (estou) em terapia, e tem sido um processo ao mesmo tempo doloroso e fortalecedor. Na última sessão, falamos exatamente sobre esse tipo de confiança. Sobre ter a confiança traída por um treinador.
Eu não sabia, ou ignorava, que ainda tinha lágrimas pra isso.
“Era uma pessoa em quem eu confiava”, eu disse, exatamente como Johnny, mas muito antes de assistir ao episódio daquela conversa. “Eu era devota a ele. De tudo, essa é a mágoa pra qual não vejo solução.”
E minha terapeuta usou um verbo que gostei: acomodar.
“Acho que essa não é uma questão de solução. Não é algo que tenha que ser solucionado. A questão é como tu vai acomodar essa dor dentro de ti daqui pra frente.”
Nem tudo tem solução, afinal.
O que, dependendo do ponto de vista, pode ser até libertador.
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Penso em todas as leituras que já fiz ao longo da vida sobre as diversas faces da violência de gênero — desde as agressões mais óbvias às diferentes nuances presentes em relacionamentos abusivos, machismo, gaslighting e por aí vai. Todas as séries, filmes e livros que já assisti e li sobre o tema, todas as leituras acadêmicas, cadeiras, palestras e debates na faculdade, todas as rodas de conversa e relatos de outras mulheres com quem já tive contato, todas as conversas entre amigas.
Conhecimento nunca me faltou. E por isso, por mais empatia que sentisse em relação às mulheres vítimas que contavam suas histórias, nunca pensei em mim mesma como uma vítima potencial ao ouvir esses relatos. Sempre pensei — de forma ingênua?, ignorante?, presunçosa? — que saber tudo o que eu sabia era o suficiente para estar imune.
E me perguntava (por curiosidade de fato, não por duvidar das vítimas) como era possível. Como era possível que elas fossem tratadas daquela forma e continuassem na relação? Que força era aquela, que tipo de mecanismo sórdido mantém tantas mulheres — independentes, inteligentes, bem-sucedidas — presas a homens agressivos?
Até pouco tempo atrás, eu nunca tinha conseguido entender.
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Mas a pergunta que comecei a me fazer recentemente é outra.
Minha relação com meu ex-treinador sempre se deu em esfera pública, em ambientes de uso coletivo. Mas e se fosse diferente? E se ele fosse um personal que me atendesse em uma piscina particular? E se eu tivesse ficado sozinha com ele em algum momento? E se fosse outra relação, de outra ordem, com outra pessoa, em outros espaços?
E se uma agressão física tivesse acontecido?
É claro que gosto de dizer pra mim mesma, e acreditar, que isso eu não aceitaria. Que nesse caso teria rompido na mesma hora. Mas a verdade difícil de engolir é que não sei se tenho como fazer essa afirmação. Não com 100% de certeza.
Esse talvez seja o aspecto mais assustador de um ciclo de abuso e violência: a maneira como a dinâmica que se estabelece aos poucos influencia e modifica o funcionamento do organismo como um todo. Incluindo funções fisiológicas.
Um dos efeitos psicológicos do estado de alerta constante é passar a duvidar do próprio julgamento, questionar as próprias percepções, invalidar os próprios sentimentos. Um dos efeitos físicos do estado de alerta constante é que coloca o corpo em modo de sobrevivência — e o que a hipervigilância faz é ensinar e acostumar esse corpo a tolerar aquilo que, em outras circunstâncias, não seria tolerado, porque o objetivo agora é outro, apenas sobreviver.
É assim que, uma a uma, as violências se sucedem — envoltas por uma névoa de dúvida e incerteza, intercaladas com bons momentos que só servem pra reforçar essas incertezas e dúvidas ainda mais. Passou do limite, mas será que passou mesmo? Foi grave, mas não foi tão grave assim, foi? Não parece normal, não é normal, mas será que não estou exagerando, vendo coisas onde não tem nada pra ver?
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A vida não é livro nem série, e o desfecho está sempre em construção. No momento, tenho algumas sequelas com as quais estou descobrindo como lidar, mas não é minha intenção que essa seja uma história triste. Essa é uma concessão que não farei.
Quero continuar sendo gentil, afetuosa e sensível. Quero continuar escolhendo confiar nas pessoas — e, agora, nos novos treinadores. E quero continuar vendo esses atributos como qualidades e não fraquezas.
Que tudo isso tenha acontecido no âmbito da natação, talvez o mais importante da minha vida hoje, é de uma ironia lamentável, mas acredito que também foi o que garantiu que eu me mantivesse firme. E nadando.
Porque meu amor pela natação é mais forte que os embustes que podem aparecer no caminho.
Diz o ditado que o que não mata fortalece e, bom, é bem por aí.
Estamos vivos
~ Débora Cançado: estamos vivos nesse tempo
~ Carol Bensimon: ainda não inventaram uma solução para a morte
~ Nathan Fernandes: o amor como um lugar no espaço e no tempo
~ Rodrigo van Kampen: quando deixamos de ser crianças?
~ Chico Canella: segunda chance não é um presente


