as águas sempre se movem
A vida continua se movendo quando a gente para de olhar.
Bem aqui do meu lado, um postal do livro da Tamara Klink me lembra disso todos os dias com as palavras: movimento das águas profundas.
As águas sempre se movem.
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Sempre achei difícil explicar, mesmo na terapia, por que passei tantos anos sem me envolver romanticamente com ninguém. Num mundo em que se pula de relação em relação quase como se troca de roupa, não é algo fácil de compreender, mesmo pra quem passa por isso.
Do meu ponto de vista, culpar relacionamentos anteriores é muito simplista — muito fácil. Ainda que cada um tenha deixado suas marcas, e deixaram, nunca foi exatamente ou só esse o motivo, por mais que se insista em procurar esqueletos no armário. E eu era tão nova e pouco desenvolvida emocionalmente quando vivi essas relações que francamente não sei nem se elas contam.
Parei de buscar relações de qualquer tipo no momento em que enxerguei o quanto eu mesma me violentava simplesmente por fazer isso — tentar. Sempre foi muito mais uma imposição externa e social do que uma vontade ou necessidade minha, então por quê?
Hoje, olhando para trás, vejo o quanto precisei de todo esse tempo.
Para viver para mim e por mim. Nos meus termos. Fazendo as minhas coisas, do meu jeito. Para descobrir os meus sonhos e sonhar e viver cada um deles. Me dedicando ao que me completa e me faz feliz e entendendo que isso nunca pode ser uma pessoa. Aprendendo a conhecer e a amar a minha companhia antes de qualquer outra. (Re)construindo minha casa, literal e metaforicamente falando.
Talvez exista, de fato, uma verdade por trás de todo clichê: antes de querer o amor de alguém, precisamos aprender a amar a nós mesmos. E esse não é um aprendizado que acontece repetindo essa frase no espelho de manhã, como certamente deve ter alguma influencer pregando por aí.
No fim, tudo é tempo.
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Outro clichê bem famoso: aceitamos o amor que acreditamos que merecemos.
Com esse, briguei por muito tempo.
Sempre olhei para os verbos “acreditar” e “merecer” quando a chave, na verdade, está no primeiro — aceitar. Um “aceitar” que sequer tem raízes no presente. Ao contrário, vem de longe — da forma como aprendemos a receber amor ainda na infância.
E o amor — o amor que vale a pena — só é possível quando sabemos reconhecê-lo. Quando temos espaço, abertura e arcabouço emocional para reconhecer (no sentido de identificar), receber e oferecer.
Uma capacidade que, pra mim, só se manifestou plenamente depois que aprendi a... me amar primeiro. Eis aí o maior aprendizado e a maior conquista de todo esse tempo “sozinha”.
(Detesto usar essa palavra dessa forma. Passa uma sensação de incompletude, quase de infelicidade, quando é o oposto. Tudo o que aprendi sendo “sozinha” foi justamente a ser completa. Completa, inteira e feliz.)
Tudo é tempo.
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Nesse caminho, bell hooks se tornou guia e âncora para tudo o que aprendi e continuo aprendendo sobre o amor.
Sobre o amor e sobre amar.
Esse amor que é verbo e prática antes de ser sentimento. O amor que é uma decisão. Ou muitas, todas em verbo: cuidar, confiar, compartilhar, conhecer, conversar, ceder (mas não se diminuir), calibrar (mas não se anular). Comunhar.
Um amor que exige trabalho também, diariamente, e de todas as partes envolvidas. Um amor baseado em e voltado para o crescimento mútuo.
Ela fala: nós não amamos — escolhemos amar.
E essa é uma escolha que só pode ser feita quando estamos prontos pra ela.
*
Dito tudo isso,
escrevi esse texto ouvindo músicas bobas de pessoa apaixonada porque essa foi a última surpresa que também a natação me trouxe: um amor.
No tempo certo. No momento certo: aquele em que pude fazer essa escolha.
As águas sempre se movem.
E continuam me guiando.
Amar como não fomos amados
~ Carol Bensimon: moléculas do aqui e agora
~ Débora Cançado: ódio às listas de leitura
~ Giovanna Panziera: distração
~ Futuro Sensível: a vida acontece quando o planejamento escapa
~ Geni Nuñez: amar como não fomos amados é recriar outros sentidos



Muitas maneiras de te ver feliz, que alegria! <3